Lá em 1970 e poucos um cara trabalhava numa lavanderia industrial e quando tinha intervalo resolvia escrever, pois era o que ele realmente gostava de fazer. Essa pessoa escreveu um conto chamado Carrie, mas não gostou do próprio trabalho e jogou as folhas fora. Sua esposa, Thabita resolveu encorajá-lo, pegou as folhas do lixo e devolveu ao marido, junto com um incentivo e uma visão mais clara sobre como escrever sobre mulheres. Esse cara, Stephen King, então resolveu expandir seu conto em um livro e, para resumir, em 1973 esse livro foi publicado, mudando totalmente a história da literatura de ficção dos Estados Unidos. Em 1976 veio adaptação para o cinema, dirigida por Brian de Palma, com a fantástica Sissy Spacek como o papel do título.
Antes de começar eu gostaria que você assistisse o filme, ou que pelo menos assistisse depois de ler a minha review. É bem interessante ler tudo isso com o filme fresco na cabeça.
Carrie é antes de tudo uma obra de arte em forma de filme. A direção é impecável, as atuações são fantásticas e a trilha sonora...ah, meus amigos, a trilha sonora! Esse é um daqueles filmes de uma época em que eles não tinham vergonha de aumentar o som da trilha sonora em algumas cenas e em que a trilha sonora é basicamente um outro personagem do filme, que pega em sua mão e te leva pra cima e pra baixo nas emoções durante as cenas. Sério, escutem isso:
Já deixei na parte que é mais interessante pra discussão
Se aí não começou em 1:30, pulem por favor até lá. Essa é a música tema da Carrie. Toda vez em que a Carrie aparece em tela, descobrindo algo novo, não sofrendo bullying, mostrando um sorriso sincero, essa música toca. Não tem como seu coração não derreter com essa melodia, é uma garota que está aos poucos descobrindo as alegrias de viver, que está notando que possui o poder de escolha para negar a situação em que ela viveu até o momento. E essa parte do tema aí vai ser usada magistralmente em outros momentos do filme, com ritmos e entonações diferentes.
A cena de abertura, da Carrie tomadno banho, é magnífica. Se por um lado nós temos uma Carrie mirrada, sem vida, nessa cena do banho, os closes são perfeitos pra mostrar que ela já é uma mulher, que seu corpo é lindo do jeito que é. Logo após, como se para confirmar que Carrie agora ultrapassou uma fase da vida, ela tem a primeira menstruação. Mas Carrie não foi ensinada sobre o próprio corpo, a louca da mãe dela não teve conversa alguma sobre isso com ela, pois acredita com veemência que mestruação é sinal de fornicação em algum nível; então Carrie se assusta e faz o mais lógico, pede ajuda para as mulheres que estão no vestiário. Mas como aluno de high school não é gente, as garotas caçoam dela e jogam absorventes nela. Carrie, acuada, chora copiosamente. E Sissy Spacek faz você sentir todo o medo e a tristeza da personagem, culminando com a primeira demonstração do poder destrutivo que a personagem possui.
Depois do incidente no banheiro, Carrie é levada até a diretoria e a treinadora gente boa esclarece para ela algumas coisas. O diretor da escola é um babaca, ele não consegue acertar o nome da Carrie, repetindo "Cassie" várias vezes. E isso te irrita, quando alguém se importa tão pouco com você que mesmo sendo corrigido não acerta seu nome. Aqui eu volto na trilha sonora, prestem atenção como o tema da Carrie está no começo, quando ela na cena ainda está tranquila. Porém, com o passar do tempo o tema se torna obscuro, o diretor continua a errar o nome dela e ela por fim se enfurece e quebra um cinzeiro com o poder da mente.
Observem a cadência da coisa
Outra personagem que merece destaque é a mãe da Carrie, interpretada por Piper Laurie. E aqui reside um dos pouquíssimos problemas do filme. A Sra. White é aquela personagem recorrente do Stephen King, aquela que nós odiamos do fundo do coração ( muito parecida com a louca do filme The Mist), ela é exagerada, ela leva sua crença ao extremo e na minha opinião a atriz Piper Laurie não entrega o feeling da coisa totalmente. Lendo alguns artigos na internet descobri que a atriz achava que era um filme de comédia, dada a postura exagerada da Sra. White, e que muitas vezes ela precisava de um tempo para não cair na gargalhada durante uma cena ou outra. Vejam bem, eu não estou dizendo que ela é uma atriz ruim, só acho que ela não pegou a essência dessa personagem, grande parte disto também acho que vem de ser uma adaptação de um autor muito novo, talvez esse tipo de personagem, que virá a se tornar muito característico dele, ainda não estivesse tão bem desenvolvido assim. Por falar em mãe da Carrie, uma coisa que eu sempre terei PAVOR são dos olhos desse santo que fica no armário do castigo:
Isso não tá certo, é muito desconfortável olhar pra esse santo
Acho que esta review já se estendeu demais, talvez seja uma das maiores que eu fiz aqui até agora, por isso vamos empacotar tudo falando da orgástica cena do baile. Até aqui nós estamos felizes com a Carrie, ela conseguiu um par para o baile com o cantor Ovelha o popular Tommy Ross, enfrentou a mãe, disse que as coisas iriam mudar, ela declara que quer ser normal, que quer interagir mais com as pessoas. Então o casal entra no baile, Carrie ainda insegura pelo motivo de Tommy Ross a ter convidado, mas a insegurança passa depois de um papo legal com a professora gente boa. Parece mesmo que tudo vai ficar bem, outras garotas conversam com a Carrie, algumas apontam, surpresas com a aparência da protagonista. Mas todos sabemos que algo vai dar errado, já que a parceira do Robocop a bully Nancy Allen e o namorado Travolta arquiteram um plano envolvendo sangue de porco. Mas essa sensação de que algo vai dar errado passa por alguns instantes. A cena da dança é muito bonita, ao som de uma música triste e suave:
É nessa cena em que Carrie tem certeza de que está feliz, as dúvidas dela sobre estar bonita, sobre o acompanhante, tudo isso acaba aqui, e nós telespectadores respiramos aliviados pela personagem. Quão grande é a surpresa da garota ao descobrir que foi votada como Rainha do Baile, que sorriso maravilhoso que Sissy Spacek coloca na personagem! Sei que posso parecer enfadonho aqui, mas eu não posso deixar de colocar a trilha de quando eles são coroados:
O tema é tocado novamente, mas escute a transição em 1:02, anunciando que aquela felicidade está para acabar em tragédia
Então em uma construção de cena incrível, nós somos levados ao desespero, quando notamos pelos olhos da personagem Sue, que o plano dos bullies dará certo, o som ambiente praticamente some e lá vem a trilha sonora te colocar pra roer unhas:
Aqui tudo para, tudo fica silencioso, enquanto Carrie se dá conta do que aconteceu com ela. Vemos uma babaca começando a rir na platéia, entre expressões de pena, mas só escutamos o barulho do balde batendo lentamente contra a madeira e do sangue pingando. E esse silêncio é perturbador, nós estamos vendo (ou melhor, ouvindo) tudo como se fossemos a Carrie. O balde cai, mata Tommy Ross e Carrie começa a lembrar da mãe dizendo que todos irão rir dela. Numa cena terrível, de partir o coração de verdade, vemos todos rindo na cara da garota, escutamos o diretor chamando ela de Cassie, a treinadora dizendo "Pode confiar em mim, Carrie" repetidas vezes. E então Carrie simplesmente não aguenta mais. Num toque genial da direção, nossa visão é divida em duas. Assistimos essa parte do filme praticamente toda com a tela dividida, mostrando quão grande é o poder mental da Carrie. E, sinceramente, você entende perfeitamente a nossa personagem principal. Ela cansou, ela chegou num ponto em que achava que a vida ia melhorar, que ela estava feliz, só pra ser jogada no nível mais baixo possível. Se eu tivesse poderes psíquicos na época da escola, eu certamente teria machucado alguns idiotas que não cansavam de caçoar de mim. Pra mim isso é que faz o filme tão palpável, em algum nível nós nos identificamos perfeitamente com a Carrie, nós sabemos o que é ser caçoado, ser alvo de piadas incessantes, e nós praticamente torcemos para que ela mate cada um daqueles que estão rindo dela. Posso parecer meio estranho aqui, mas é bem gratificante ver a Carrie tacando o terror, na verdade vai além disso, o filme nos faz ENTENDER as ações dela.
O filme caminha para o final, Carrie vai para casa, mata o casal que pregou a cruel peça. Ao chegar em casa a garota vai tomar banho, e somos presenteados com mais uma linda trilha (é a última, eu prometo):
Essa música pega o começo do tema da personagem lá em cima e subverte, dá um tom extremamente triste. Essa é a cena em que Carrie está mais frágil. Ela se despe da roupa suja de sangue e entra na banheira para chorar e se limpar, aqui eu realmente já estava de coração partido.
Adiantando, há um confronto entre Carrie e a mãe, a mãe esfaqueia a filha pois quer eliminar a bruxa que tem em casa, a serva de satã. Sissy Spacek entrega uma atuação estupêndua, a garota só quer o conforto da mãe, até se dispõe a voltar à rotina religiosa horrenda na qual era submetida, mas ao invés disso é esfaqueada nas costas, é traída. E como último recurso, para não ser esfaqueada novamente, Carrie usa seus poderes matar a mãe. E numa sacada muito genial, a mãe acaba morrendo como o São Sebastião medonho do armário do castigo da reza:
E assim basicamente o filme termina, a casa é posta ao chão por uma chuva de pedras e tem mais uma ceninha final com a Sue.
Carrie é uma obra de arte, por todas as capas de filme você espera um filme de terror, mas na verdade é puro horror. É um filme que te deixa feliz, de coração leve, só pra te jogar com força lá no fundo. O ritmo é correto, as atuações, e da trilha sonora eu já falei demais (só não falei do nome do compositor: é o italiano Pino Donaggio, e quando eu paro pra pensar agora, a trilha é bem italiana mesmo). Encerro aqui então essa review sobre essa peça rara do cinema.




