terça-feira, 5 de abril de 2016

Nós precisamos falar sobre Starry Eyes


Starry Eyes (2014) 

Eu estava pronto para escrever sobre Final Girls aqui no blog (e ainda vou), quando numa noite nós paramos para ver um filme. Eu havia adicionado esse na minha lista do Netflix baseado numa lista de filmes de terror que encontrei em algum site por aí (adoro listas de filmes de terror), então bem a esmo fui e escolhi esse aí.
Starry Eyes conta a história de uma jovem atriz que tenta fazer a vida como tal na cidade de Los Angeles. Essa moça, Sarah, acaba dando de cara com um papel muito importante em um filme de terror de uma renomada produtora e descobre que o papel vai exigir muito mais do que simplesmente saber atuar. 
Me lembro de alguns anos atrás de um filme que era pra homenagear os filmes satanistas das década de 80. E foi uma presepada só, uma campanha de marketing gigante, lançaram o filme em VHS e um video cassete também... Só que esqueceram de investir no roteiro do filme, resultando em um soco de tédio de 1:30h. Meu ponto é: Starry Eyes faz essa homenagem, e também às décadas anteriores, muito melhor, e sem presepada e forçação de barra!
Pra começo de conversa, ele é sim um filme lento, de desenvolvimento vagaroso, lembrando muito "O Bebê de Rosemary". Diferente dos filmes de terror de Hollywood que nós temos hoje, não vemos jump scares, sustos de trilha sonora, ou essas bobagens que só servem pra agradar uma geração nova que carece de boas referências. O filme é maravilhosamente conduzido pela atriz principal, a desconhecida Alex Essoe; ela coloca toda a alma e profundidade numa personagem que exige isso, é por causa dela que sofremos tanto ao assistir o filme e, muitas vezes nos perguntamos se ela não colocou um pouco mais dela na personagem do que seria necessário em termos de sanidade. O clima do filme começa bem leve, com as dificuldades de uma aspirante a atriz e seus amigos de fazer sucesso numa cidade que respira cinema. Vemos uma rivalidade boba aqui, um isolamento ali e tal. Então a partir de um ponto chave do filme, o clima vai se fechando e ficando pesado...e é isso que eu amo em filmes de terror lentos bem executados, esse clima de tensão crescente, de desespero, de falta de esperança e de luz na vida, esse peso no coração. Gosto da palavra "pavor" pra descrever o que eu senti vendo este filme, não terror, não medo, mas pavor. Pra não dizer que o filme é só uma passada lenta, perto do final temos uma cena de gore incrivelmente gráfica, que é de virar o rosto...Por falar em gráfico, a maquiagem na atriz principal é soberba!
Agora eu preciso falar da trilha sonora desse filme. Esse é uma daquelas películas em que a trilha sonora é um personagem, coisa que está praticamente extinta hoje em dia ( um dos melhores exemplos que tenho sobre trilhas que são personagens está em Suspiria, do mestre Dario Argento, de 1977). A trilha LINDA feita com sintetizadores, composta por um Jonathan Snipes, dá o tom do filme, acompanha envolvendo tudo como um abraço sinistro de satanás. Vou deixar uns links aqui para vocês verem do que estou falando: (tinha uns links separados, mas o youtube comeu, então vou colocar o link da trilha toda, coloquem pra ouvir, vale muto a pena!)



Assim encerro o que acho que foi a maior review que ja fiz no blog até agora. Se não assistiram Starry Eyes ainda, assistam, se assistiram e cochilaram,  deem mais uma chance a este filme que faz uma homenagem tão incrível a filmes de terror igualmente incríveis, sem deixar de surpreender. 
P.S: Aqueles vermes da cena da banheira eram de verdade...sim, eles eram de verdade...










sexta-feira, 29 de janeiro de 2016


Kurutta Ippeji (A Page of Madness)
Japão - 1926

O cinema japonês é único de várias formas diferentes. Não dá pra assistir um filme japonês, feito para japoneses, achando que a estrutura é a mesma que estamos acostumados. O modo de contar a história é diferente, o jeito como a trama é construída é muito peculiar, a atuação está num nível completamente alienígena para nossas meras mentes ocidentais.
Kurutta Ippeji, de 1926, é um desses lindos filmes japoneses que no começo não fazem sentido algum e que à medida que o tempo vai passando os elementos para entendermos tudo são dados aos poucos.
É difícil até dar uma sinopse, mas tentando seria algo mais ou menos assim: O filme se passa em um hospício e acompanha(?) um trabalhador na tentativa de soltar sua esposa. Aos poucos descobrimos também que ele tenta fazer com que a esposa aceite a filha (que aparentemente teve a ver com o surgimento da loucura da mãe), mas a mãe está tão ensandecida, tão em outro mundo que rejeita qualquer tipo de aproximação.
Logo no começo somos presenteados com uma cena de tempestade em que uma das moças internadas no hospício dança freneticamente ao som da chuva, e você pode sentir o ritmo da música(chuva) aumentando e a dança se tornando mais intensa até o momento em que a dançarina cai com os pés sangrando.
Destaque também para a cena da feira ambulante que chega na cidade, é tudo muito bonito de se ver (mesmo sem cor alguma)
O filme é hipnótico e lindo, com danças, máscaras, luzes, loucura. A cena em que o frenesi de loucura se instaura em torno da dançarina é LINDA. As máscaras, o festival chegando... e é incrível como esses atores dos tempos do cinema mudo conseguem passar tão bem os sentimentos, as angústias, a história dos personagens, sem dizer uma só palavra que seja audível.
Enfim, se você gosta de esquisitices orientais, filmes mudos e em preto e branco, ou se você está disposto a se arriscar num território novo, Kurutta Ippeji é um belo exemplar.